quarta-feira, 12 de junho de 2013
sábado, 8 de junho de 2013
Readapting
Fui assaltada a cinco minutos de casa e fiquei neurótica o suficiente para encher as portas da casa de cadeados. Não importa que o assaltante tivesse cara de debilóide, parecesse estar desarmado e tenha levado apenas um pouco de dinheiro e um celular com defeito. Ou que ele não tenha me machucado e tenha sido suficientemente paciente com a minha estabanação em encontrar dentro da bolsa as coisas que ele pedia. Saí "ilesa", mantive meus documentos e as chaves de casa, mas não importa. O medo e a sensação de vulnerabilidade continuam aqui.
Busco me consolar com meu novo brinquedo - bem superior ao telefone antigo e que me custou pouco, para ser sincera. Tenho zero avidez com tecnologia, tanto que só troco meus aparelhos eletrônicos quando eles ficam, de fato, imprestáveis. Já usei notebook com teclado queimado (conectava um portátil) até ele caducar de tão lento. Um dos meus celulares foi utilizado sem antena, com display manchado, teclas caindo e tampa da bateria sem um pedaço, até que uma alma caridosa decidiu me presentear com um novo. Esse aparelho que o assaltante levou estava com um problema no software que impedia o acesso ao menu e a mais da metade das funções acessórias.
Com a nova aquisição, comprei capinhas bonitas, baixei livros e dicionários, assisto às minhas séries no trem. Também tenho aproveitado para testar o Instagram e o Google Play Livros, como experimento mesmo, porque minha vida de anciã interessa a quase ninguém nas redes sociais, e porque a leitura no celular não substitui nem de longe o prazer do livro físico. O aplicativo demora a carregar as páginas, que são muito pequenas, e nem sempre o marcador se mantém na página certa. Fora que, no livro tradicional, posso fazer grifos e anotações e usar marcadores bonitos.
Não consigo fazer foto de look no Instagram com a câmera em pé, porque ele corta as fotos quadradas e decepa minha cabeça ou meus pés. Se alguém tiver macete, instrua essa ignorante, por obséquio.
Confesso que tem rolado um amor ao tamagotchi, mas espero que, passada a empolgação da novidade, eu consiga retornar a minha vida moderadamente conectada, até porque o risco onipresente de assalto nessa cidade desencoraja o apego.
Gostaria também de retomar minha rotina de programas culturais, que anda negligenciada desde que voltei de viagem. Tem a exposição Elles: mulheres artistas na coleção do Centro Pompidou, no CCBB, a peça interativo-dançante Jukebox, e os filmes Great Gatsby e Before Midnight, que tenho esperado tão impacientemente.
Com minha rotina e estabilidade emocional desandadas, acabo me sentindo mais extenuada que o habitual. Minha vida pessoal e a profissional estão todas atrasadas (este texto da Pati ilustra bem como tem sido), mas preciso ter paciência até que as coisas reencontrem seu ritmo e para que eu consiga me tranquilizar e retomar um mínimo de controle antes de acabar adoecendo de verdade.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Encontros e desencontros com Cortázar – um caso de redescoberta e reconciliação
Meu primeiro contato com o
escritor belga-argentino Julio Cortazar se deu quando comprei sua primeira
coletânea de contos, Bestiário (1956), num sebo em
San Telmo, da primeira vez que fui a Buenos Aires. Na época, eu fazia curso de
espanhol e achava que seria uma boa oportunidade para me familiarizar com o
idioma e conhecer o escritor, tão citado nas rodas literárias.
A escolha acabou se mostrando pouco profícua porque,
ignorante de que o escritor integrava uma vertente de ruptura, tive dificuldade
tanto em compreendê-lo como em avançar nos conhecimentos da língua. Acabei
deixando o livro para um momento futuro, no qual eu estivesse melhor preparada.
Voltei ao escritor, cerca de um
ano depois, com As armas secretas (1959), livro adquirido num
sebo, com uma linda capa onde figura um saxofonista - menção ao personagem do
conto “O perseguidor”. Estão nessa coletânea os contos “As babas do diabo” -
que teria inspirado o famoso filme Blow up, de Michelangelo Antonioni -
e “Cartas a mamãe”, que também inspirou um filme noir esquisito que
assisti numa mostra de cinema argentino do CCBB. Foi essa coletânea que tirou a
minha “má impressão” com o Cortazar, primeiro porque o li em português,
compreendendo melhor o estilo do autor. Também contribuiu o fato de que As
armas secretas é menos ousado estilisticamente que Bestiário.
Bestiário meio que lança as bases onde o escritor se apoiará nos livros seguintes: o inusitado, o
fantástico, relatos intimistas, ambigüidades, criaturas mágicas, finais inexplicáveis que em vez de
encerrarem as histórias abrem-lhes para novas interpretações. O autor logra em
construir um clima de tensão e de mistério que se desenrola em finais
surpreendentes, como em “Casa tomada” e “Ônibus”, que deixam o leitor à deriva.
“Carta a uma señorita em París” e “Cefalea” introduzem as criaturas e o
universo imaginários que singularizariam o escritor. E tudo isso é conduzido por narrativas simples, que simulam, muitas vezes, relatos confessionais.
Em As armas secretas,
Cortázar segura um pouco a mão no absurdo e dá um tratamento um pouco mais
cuidadoso à escrita, em relação ao primeiro livro. O fantástico e os desenlaces
surpreendentes ainda estão presentes em “Cartas a mamãe” e “As babas do diabo”;
e há novamente o relato intimista – repleto de hesitação, angústia e confusão
psicológica no pungente “O perseguidor” - e o suspense do perturbador “As armas
secretas”. No entanto dessa vez, nota-se o emprego de metáforas mais inusitadas
e criativas, e uma cor mais universal na composição dos textos.
Uma grande sacada nesses dois
livros é o narrador pouco confiável, sujeito às traições da memória, às
reconstruções inconscientes, ao devaneio quase delirante que contamina a
narrativa e turva a “compreensão” dos fatos. É o modo através do qual Cortazar
tematiza o processo criativo, a invenção, obrigando o leitor a concluir as
narrativas por si. No conto “As armas secretas” e em “Lejana”, de Bestiário,
esse fenômeno é exacerbado na múltipla perspectiva dos fatos.
não resisto a fotos de escritores com seus gatos ♥
É preciso dizer que essa resenha
só existe por causa de História de Cronópios e de Famas, que
adquiri nessa última viagem a Buenos Aires. Publicada em 1962, essa coletânea
de contos é um chute na porta, uma voadora na cara em relação aos outros dois
(ele ainda publicou Todos os fogos o fogo, em 1966, que não li).
Iniciei a leitura no avião, dando
muita risada e tendo uma grata surpresa. Como já sabia que iria escrever sobre
ele, resolvi reler logo os outros dois para tecer possíveis comparações e
compreendê-lo dentro de um contexto mínimo. O livro, que eleva os recursos de Bestiário
à enésima potência, abandona o mistério para adentrar o nonsense.
Dividido em quatro partes – “Manual de instrucciones”, “Ocupaciones raras”,
“Material plástico” e “Historia de cronopios e de famas” é um convite à
renovação do olhar sobre as coisas cotidianas. O “Manual de instruções” quer na
verdade que desaprendamos a ver de forma viciada e alheia, instando-nos a nos
ater cuidadosamente sobre as pequenezas do mundo, como se o olhar detido e
muito aproximado destituísse os objetos e fatos de sua familiaridade, assumindo
um caráter novo e, por vezes, bizarro.
O exercício criativo é novamente
posto em evidência através da narrativa lúdica, claro exercício de
criatividade. Aqui, a referencialidade é posta em xeque, sob nova
perspectiva, como os hábitos inusitados e esdrúxulos das famílias e personagens
de “Ocupaciones raras”. A descrição das personagens insere-se, por vezes, na
tradição do realismo maravilhoso, que se utiliza de alegorias para fazer menção
ao real. É o caso das criaturas imaginárias da última divisão: os cronópios, as
famas e as esperanças têm seus correspondentes no mundo real, servindo como
divertidas caricaturas dos tipos humanos, como metáforas lúdicas. Buenos Aires e seus moradores
aparecem nesse livro, e um pouco nos outros dois, sob uma abordagem estetizada
que se apropria das diferentes peculiaridades no que elas têm de mais original.
Cortázar busca manejá-lo de modo a elevar o particular da realidade urbana
portenha a um caráter mais universal. E o faz com humor.
É sintomático que seja este o
livro que antecede o celebrado O jogo da amarelinha, romance
cujos capítulos podem ser lidos em diferentes ordens. Há quem
questione a qualidade das obras do escritor, considerando-as leituras
adolescentes. Esse tipo de julgamento é comum com autores cujos textos conseguem
promover uma identificação mais imediata pelo leitor (Salinger?). E é
claramente o caso História de cronópios de famas, que é a um
tempo tesouro e brincadeira. Uma homenagem, uma louvação à literatura e à
imaginação e um convite ao rechaço da vida como alienação e rotina embotada. Um refresh do olhar que permite que reavaliemos também a nós mesmos.
É
desses livros que se ama ou odeia, que se adota para a vida ou se abandona
antes do fim por excesso de presepada. Creio que nem preciso dizer qual desses
dois foi o meu caso, não?
;)
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Um museu para quem ama os Beatles
Continuando sobre Buenos Aires, na Avenida Corrientes, dentro da Galeria Paseo La Plaza, ficam o Museo Beatle e o bar The Cavern Buenos Aires. Ambos pertencem ao empresário argentino Rodolfo Renato Vazquez, dono da maior coleção individual sobre a banda in da ráuse planet. Li sobre esse museu num blog de viagens e tomei nota no meu caderninho, só que por algum motivo escuso, senilidade provavelmente, esse item desapareceu da minha lista mental.
Fui alegre e feliz rumo a Avenida Corrientes com o objetivo claro de falir em livros. Lá pelas tantas da tarde, estou subindo a rua sísivamente com minhas sacolas pesadíssimas, quando noto uma galeria com pôsteres de teatro. Como namorado e eu havíamos estranhado a ausência de cinemas pelas ruas, pensei que ali pudesse existir algum. Não tinha certeza se todos os pôsteres eram de peças (a Corrientes, aliás, abriga vários teatros) e decidi entrar para conferir. E eis o reduto beatlemaníaco, em toda a sua glória, bem na minha cara. Teriam as instâncias superiores cuidado para que eu tropeçasse no museu, que acabaria esquecido se dependesse da minha memória? Só sei que uma de minhas paixões acabou me levando a outra. Ainda bem!
O museu expõe alguns dos tesouros de Rodolfo, tais como fotos com o Ringo e Pete Best, autógrafos dos Fab Four, de George Martin e de algumas das "fab wives", e memorabília variadíssima - de miniaturas a caixinhas de suco de frutas.
Ao lado, fica o pub temático, que conta com um palco na parte externa para apresentações ocasionais. As fotos estão ruins, mas dão uma ideia do lugar.
certificado do nascimento do Paul (what the fuck?)
Ao meu lado, o monte de sacolas com o estrago literário que fiz nos sebos e livrarias da Corrientes.
o sorvete dele: Black Bird
e o meu: Rubber Soul
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