domingo, 28 de agosto de 2016

Liturgia do Fim, de Marilia Arnaud



Vídeo-resenha do romance Liturgia do Fim, da autora paraibana Marilia Arnaud.

Lendo Ficções: Funes o Memorioso




Mais um vídeo do Projeto Lendo Ficções, dessa vez sobre o conto "Funes o Memorioso".

Sorteio | Dois anos do Canal



Confiram o sorteio em comemoração aos dois anos no canal! Tem três excelentes livros, marcadores e uma ecobag fofa!
:)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Dias de abandono


Eu era íntegra e íntegra continuaria a ser. A quem me faz mal, devolvo na mesma 
moeda.  Sou oito de espadas, sou a vespa que  pica, sou a cobra escura. Sou o animal
 invulnerável que atravessa o fogo sem se queimar. — Pg. 73

Publicado pela primeira vez em 2002, Dias de abandono é o segundo livro de ficção da escritora italiana Elena Ferrante. Narrado em primeira pessoa, o livro conta a história de Olga, uma mulher de trinta e oito anos, mãe de dois filhos, que é abandonada pelo marido, Mário. A protagonista, que havia abdicado de uma carreira breve como escritora para se dedicar à família, vê-se de repente sozinha e responsável pelas crianças, pelo cachorro e pela casa. 

A narrativa é uma descrição primorosa e muito realista do processo de luto de Olga. Cada fase — a negação, a revolta, a desagregação — é construída com muita força e clareza, e traça o caminho que a personagem faz do trauma em direção a uma reabilitação. É como se a personagem explodisse em milhares de fragmentos e depois tivesse de se remontar, tendo de descobrir, ou de criar ela própria, um modo de o fazer.

A minha tarefa, eu pensava, é mostrar que é possível permanecer sã. Demonstrá-lo a mim mesma, a mais ninguém. Se for exposta aos lagartos, combaterei lagartos. Se for exposta às formigas, combaterei formigas. Se for exposta aos ladrões, combaterei ladrões. Se for exposta a mim mesma, combaterei a mim. — Pg. 54

Numa narrativa relativamente curta, 183 páginas, percebemos a transição gradativa da personagem pelos diferentes momentos dessa crise, através de reações, pensamentos e falas muito vívidos e angustiantes. Ferrante constrói com muita eficiência o processo de perda da protagonista. Mulher contida e hesitante, Olga vive uma espécie de desbordamento: perde o controle das emoções e dos elementos ao redor, perde as referências e a noção do real que a cerca, perde-se de si mesma enquanto é consumida por um sofrimento imensurável. Até o seu discurso é afetado pelo descontrole:

Quando eu era novinha gostava do linguajar obsceno, me dava uma sensação de liberdade masculina. Agora sabia que a obscenidade podia causar centelhas de loucura, se nascia de uma boca controlada como a minha. — Pg. 19

Nesse livro, Ferrante antecipa um dos pontos mais importantes da Série Napolitana: a construção das personagens femininas. Se na Série, Lenu e Lila eram mais que esposas e mães, em Dias de abandono, esses dois papéis são trabalhados de forma não idealizada. A relação entre mãe e filha, que muito influenciou as escolhas de Lenu na Série, já aparecem aqui na dupla condição de peso e legado, e, por mais que as personagens insistam em não repetir certos padrões maternos, eles reaparecem em momentos de crise, tornando mais árduo o seu poder de escolha e decisão, mais difícil a sua autonomia. Mas não impossível, e Ferrante explora essa questão com muita segurança.

Minha mãe falava sobre isso com suas funcionárias, cortavam, costuravam e falavam, falavam, costuravam e cortavam, enquanto eu brincava sob a mesa com os alfinetes, o gesso, e repetia a mim mesma o que eu ouvia, eram palavras entre a aflição contida e a ameaça, quando você não sabe segurar um homem, perde tudo, relatos femininos de fins de caso, o que acontece quando, plena de amor, você não é mais amada, é deixada sem nada. — Pg. 12.
Minha mãe me chamou logo para casa, estava nervosa, muitas vezes se zangava comigo sem nenhum motivo, eu não tinha feito nada de mal. Às vezes me dava a impressão de que ela não gostava de mim, como se reconhecesse no meu rosto algo de si que ela mesma detestava, um mal secreto seu. — Pg. 49

Comparado com a Série Napolitana, Dias de abandono é mais direto, menos sugestivo, permite menos inferências, o que funciona para manter a tensão num livro curto sobre uma crise. O texto, no entanto, traz algumas sutilezas, como o paralelo entre as profissões de Olga e de sua mãe — uma escritora e outra costureira, ambas artífices de tecituras. Olga recebeu da mãe retalhos de ensinamentos, tecidos numa malha que lhe pesa na idade adulta. Olga, por sua vez, escreve suas experiências numa tentativa de devolver sentido aos fragmentos de sua vida esfacelada. Há, ainda, a dificuldade de Olga em manusear chaves, como uma metáfora do seu acesso precário ao cerne de suas emoções.

Nas resenhas sobre a Série Napolitana, ressaltei a habilidade que Ferrante tem em unir o melhor de dois mundos: a narrativa ágil e novelesca e a profundidade da análise social e da construção de personagens. Em Dias de Abandono, a autora arrisca um desfecho tradicional, fraco e mais ajustado a histórias românticas açucaradas, que não se encaixa bem nessa narrativa. Esse deslize, no entanto, não chega a comprometer a coesão, o impacto e a verossimilhança desse pequeno e notável texto.


*esse livro me foi oferecido pela editora Globo Livros.

domingo, 3 de julho de 2016

Resenha: A Definição do Amor



Vídeo-resenha do romance A Definição do Amor, do escritor português Jorge Reis-Sá. É um diário de luto bastante poético e o primeiro livro que leito do autor.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Lendo Ficções: A Biblioteca de Babel



 Demorei mas cheguei de volta ao canal com mais um vídeo do projeto Lendo Ficções. Dessa vez, comento o fascinante conto "A Biblioteca de Babel".

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Lendo Ficções: Exame da Obra de Herbert Quain



Mais um vídeo do Projeto Lendo Ficções, onde comento o conto "Exame da Obra de Herbert Quain".

sábado, 23 de abril de 2016

Shakespeare no cinema: 5 excelentes adaptações



Gamlet, de Grigori Kozintsev (1964) Um dos filmes mais impressionantes que já vi. Uma adaptação russa, muito à altura do texto do bardo, com excelente atuação de Innokentiy Smoktunovskiy no papel principal, desenvolvimento primoroso das cenas dramáticas, fotografia perfeita. Um filme grandioso, que nos engole.




Trono Manchado de Sangue, de Akira Kurosawa (1957) - Kurosawa levou a história de Macbeth para o Japão medieval e criou um monumento, também muito adequado à grandiosidade do texto shakespeariano. Tem o incrível Toshiro Mifune no papel principal, além da bruxa e da Lady Macbeth mais horripilantes que já vi.



Ricardo III, Laurence Olivier (1955) - Ricardo III ficou eternizado em minha mente como o personagem criado por Olivier em sua excepcional adaptação. Olivier incorpora a pura maldade com muita força e realiza com todo o vigor o vilão mais cínico e ao mesmo tempo mais carismático da dramaturgia shakespeariana.



Muito barulho por nada, Joss Whedon (2012) - Adaptação contemporânea bastante original dessa comédia sobre a guerra dos sexos. Todo em preto em branco, o filme atualiza o humor shakespeariano de modo inteligente, sem perder as melhores farpas trocadas entre Beatriz e Benedito.



Cesar deve morrer (2012), Paolo e Vittorio Taviani - Aqui os irmãos Taviani misturaram documentário com adaptação, já que filmaram com detentos reais de uma prisão de segurança máxima de Roma. O filme mostra a escolha do elenco, os ensaios da peça Julio Cesar (de forma bastante estetizada) e a apresentação final para os familiares dos detentos. O filme desconcerta ao mesclar realismo e teatralidade intensa. Único e soberbo!